A história de Engenheiro Goulart.
Texto enviado e autorizado a divulgação aqui por Osvaldo Pineda Filho, antigo morador do bairro.
ENGENHEIRO GOULART ANTIGO
Por Osvaldo Pineda Filho
UM EXCELENTE BAIRRO DESTRUIDO PELO PROGRESSO
CONSIDERAMOS EXCELENTE O PERÍODO HAVIDO
ENTRE A CRIAÇÃO DO BAIRRO E O ANO DE 1970
ALGUMAS PERGUNTAS QUE SURGIRÃO E QUE,
ANTECIPANDO, PASSO A RESPONDER:
PERGUNTA 1
QUEM É VOCÊ PRA FALAR DE ENG. GOULART ?
Meu nome é Osvaldo Pineda Filho (conhecido pelo apelido Dinho). Fui morador de
Engenheiro Goulart por mais de uma vez. Sei que não fui um morador popular nem
conhecido por todos os moradores. Quem sabe o mais apaixonado pelo bairro, pois
morei nele 3 vezes em 4 endereços diferemtes. A primeira na Rua dos Economistas
entre 1950 e 1961 (entre meus 03 e 14 anos). Depois disso, mudei-me, por decisão
da família, para uma cidade do interior de São Paulo (Taquaritinga) que é a minha
cidade natal, bem como era a dos meus pais (lá morei entre meus 14 e 18 anos).
Não deu certo. Voltamos para Engenheiro Goulart, em 1967 e lá moramos até 1975.
Primeiro fomos morar na Rua dos Bancários até 1970 (entre meus 19 e 22 anos).
Em seguida, mudamos para um apartamento na Praça Engenheiro Goulart (hoje
Praça Cajé) entre meus 22 e 29 anos. Em 1976 me casei com uma moça do bairro,
a Cecília (filha do Sr. Peixoto e da D. Nazareth, do antigo grupo escolar) e fui morar
em São Miguel Paulista. Pela minha paixão pelo bairro e por minha mãe continuar
morando em Engenheiro Goulart, nunca deixei de frequentar e me relacionar com
as pessoas do bairro naquele período.
Tão logo pude, voltei em 1980. Adquiri uma casa em Engenheiro Goulart (na Rua
dos Horticultores) onde, daquela vez, residi até 1982 de onde, por razões
profissionais (transferido pela empresa), fui morar no Rio de Janeiro até o final de
1984. Transferido de volta para a capital paulista, voltei em 1985 para morar em
Engenheiro Goulart, na Rua dos Horticultores e, novamente, por razões profissionais
em 1988, tive que me mudar para Guaratinguetá (interior de São Paulo) e em 2000
fui morar novamente no Rio de Janeiro. De lá voltei em 2010 a morar em
Guaratinguetá, onde resido até hoje.
Resumindo, morei em Engenheiro Goulart por três períodos. No total, entre
chegadas e partidas, morei 38 anos no bairro, entretanto, mantenho vários contatos
com moradores até hoje em função de parentes que ainda residem nele.
Considero-me um morador não muito popular como foi meu finado irmão, o Irany,
ou ainda, como foram ou foram os meus primos Reginaldo (filho do Chiquinho), o
Marcilio (filho do Romeu jogador de malha) e do José Henrique, (filho do Renato –
ex-corretor de imóveis em Engenheiro Goulart).
PERGUNTA 2
PORQUE E PRA QUE ESCREVER SOBRE ENGENHEIRO
GOULART ?
No começo deste artigo imaginei que se alguém fizesse esta pergunta eu não
saberia responder. Cheguei a admitir que o que me levava a escrever sobre o bairro
era apenas uma forte saudade de um tempo que não volta mais.
Porém, na sequencia do trabalho percebi que, existem muitas coisas a ver com
Engenheiro Goulart e que, suponho, não somente a mim interessam.
Como exemplos vou falar sobre:
1 – Amizades
2 – Respeito
3 – Segurança
Apesar de ter enumerado apenas três assuntos acima, certamente, eles justificam,
engrandecem ou, no mínimo, valorizam muitas outras coisas, como:
(Coisas e fatos acontecidas entre 1950 até 1980)
Um lugar onde ter grana ou não, não separavam as pessoas
Um lugar onde as crianças podiam brincar ao ar livre
Um lugar em que as pessoas tinham tempo para os outros
Um lugar num tempo os assuntos não vinham da tela de um celular
Um lugar num tempo com coisas que nos faziam feliz
Resumindo:
A - A vida em Engenheiro Goulart até 1980 oferecia a todos, tudo o acima relatado.
B – Quem viveu em Engenheiro Goulart antes de 1970, certamente, já conheceu em
vida o que é viver no Paraiso.
AMIZADE
Todos os que viveram em Engenheiro Goulart, antes de 1970, hão de se lembrar de
que os itens aqui destacados eram comuns, acessíveis e praticados por todos os
moradores, principalmente em relação à amizade.
Para iniciar apresento um fato vivido pela minha família nos primeiros dias de nossa
mudança para o Bairro, em 1950, na Rua dos Economistas.
Naquela rua fomos um dos pioneiros nas casas construídas pelo Banco. Haviam
poucos moradores naquela rua, uma delas, a D. Isabel, no dia em que pra lá
mudamos, veio até nós para oferecer sua amizade e agua para o caso dela nos
faltar. É que ela tinha um poço no seu quintal. Muito simpática!
No dia seguinte, ao anoitecer, recebemos a visita de um morador daquela mesma
rua, o Sr. Prudêncio Campos (pai da Janete, do Wilson (o Fominha), do Nelson (o
marrom) e do Edson (o bisteca) para nos recepcionar e oferecer amizade e qualquer
ajuda que considerássemos necessária. Depois do cafezinho e de um bom papo,
onde pudemos conhecer a história dele e da sua família, bem como ele a da nossa
família, bem no momento das despedidas, chegavam novas visitas em casa o que
nos deixou muito bem impressionados com a vizinhança. Era o Sr. Mario e a D.
Isaura (mãe do Flavio - Vicão), para o mesmo oferecido pelo Sr. Prudêncio.
Na semana seguinte, fomos agraciados com a visita do Sr. Alípio (o do grupo
escolar) acompanhado das filhas Alice e Mercedes. Visitas essas com a mesma
finalidade, a de oferecer amizade. Enfim, por essa receptividade constatamos a boa
índole, educação e a boa intenção dos nossos vizinhos. Era inegável que a amizade
não era apenas entre as crianças ou adolescentes. A amizade era entre as famílias.
Com isso, aprendemos recepcionar os vizinhos e a praticarmos o mesmo em relação
a cada novo morador que chegava no bairro.
Além da amizade, era comum que todos os moradores cultivavam as boas
amizades. Apesar de esses fatos terem acontecido há mais de 70 anos, desde a
minha primeira mudança para Engenheiro Goulart ainda cultivo amizade com várias
pessoas contemporâneas.
RESPEITO
Como todas as famílias cultivavam amizade entre elas, no mínimo, estava garantida
a prática do respeito entre elas. Todos, crianças, jovens e adultos, se conheciam
pelos nomes. Isso era coisa de todos para com todos os moradores do bairro.
É claro que havia jovens mais afoitos ou mais agressivos em relação a outras
pessoas. Porém, eles e todos os moradores do bairro, por saberem que seus pais
eram amigos e parceiros, em muito minimizavam quaisquer desvios de conduta ou
desrespeito entre os moradores.
Raramente se ouvia dizer de ter havido algum tipo de desentendimento ou de
desrespeito entre os moradores.
As mulheres e os idosos sempre recebiam o amparo de todos contra o desrespeito.
SEGURANÇA
É claro que a vida naquele tempo era mais calma, mas o que garantia a segurança
dos jovens de Goulart eram a união e a amizade entre eles o que permitia que
sempre, se mantinham e se deslocavam em grupos.
Até o inicio dos anos 60, a única escola de Engenheiro Goulart (a República do
Uruguai) não oferecia cursos que não o primário. Por isso, era necessário que os
pretendentes a cursos mais avançados se deslocassem até os bairros vizinhos,
Ermelino Matarazzo ou Penha, para tanto.
Na Penha, o Estadual era o preferido e objetivado pelos que podiam ou pretendiam
estudar no período diurno. Em Ermelino Matarazzo, havia a opção de curso no
período noturno.
No Estadual da Penha, as exigências de dedicação dos alunos eram bastante altas.
Somente os realmente aplicados faziam sucesso.
Em Ermelino Matarazzo, pela característica dos cursos noturnos (aulas com menor
período de aulas) em geral, facilitavam aos alunos no progresso escolar.
Nesse deslocamento necessário, por jovens (rapazes ou moças), mesmo que
retornando dos cursos noturnos pelo trem das onze, jamais se teve noticias de
algum assédio ou ameaça.
Antes de 1970 não havia iluminação publica para proporcionar uma sensação de
maior de segurança. Porém, isso não impedia que os jovens frequentassem cursos
noturnos ou saíssem do bairro.
Também era comum ver as crianças brincando nas ruas, a qualquer hora do dia ou
após o escurecer. Não havia nenhuma preocupação em relação aos perigos que
atualmente existem, inclusive em Eng. Goulart. Nem mesmo havia circulação de
autos que pudessem por em risco as pessoas nas ruas.
Naqueles tempos, a força policial do bairro era formada por apenas um soldado, no
período comercial. Nunca aconteciam casos em que a atuação policial era acionada.
Depois de algum tempo a força policial cresceu 100 % com a inclusão nos quadros,
do Sargento Julio. Ambos os policiais eram amigos de todos no bairro.
Importante associar a segurança que todos desfrutavam com o respeito. É que pela
amizade o respeito de todos para com todos era notória.
Acrescente-se ao respeito existente o fato de que, como o bairro era pequeno,
qualquer individuo que não fosse dali era imediatamente reconhecido e à partir
dessa identificação, passava a ser detalhadamente observado pelos moradores.
O TRIO AMIZADE, RESPEITO E SEGURANÇA
Esses três pilares comportamentais praticados em Engenheiro Goulart na época que
abarca esse trabalho, garantia uma vida plena de paz.
Por isso é que os outros itens mencionados como essenciais para ser um bairro
excelente, ficavam fáceis de alcançar, tais como:
TER OU NÃO TER GRANA, POUCO IMPORTAVA
Naquela época, como em qualquer época, as diferenças sociais e econômicas
certamente existiam. Porem, pelo tipo de moradores e suas boas índoles, essas
diferenças não aconteciam a ponto de se sobreporem sobre as amizades e ao
respeito que todos ali buscavam. Afinal, falamos de pessoas que vieram para o
bairro para serem donos de suas casas e para cultivar boas relações. Não havia
exploradores que se beneficiassem dos seus vizinhos.
No inicio do bairro, poderemos observar (num capitulo especial sobre a fundação do
bairro), qual era o tipo de pessoas que atuaram na formação dele. Ali poderemos
perceber que os moradores não buscavam apenas um lugar para morar. Buscavam
um lugar para viver.
Naquele capitulo chamaremos a atenção dos leitores (amigos do bairro) para a
percepção do motivo pelo qual o final da paz do bairro se inicia por volta de 1970 e
se vai se agravando a ponto de afirmarmos que a paz teria acabado totalmente à
partir de 1980.
AS CRIANÇAS PODIAM BRINCAR SEM ESTAREM TRANCADAS
As ruas não eram asfaltadas, não existiam calçadas nem iluminação pública, por
isso mesmo, era liberado um infinito espaço ao ar livre para a alegria das crianças.
Não havia trafego de veículos dada a simplicidade em que viviam as pessoas
naquele tempo. No período onde os meninos brincavam de bolinhas de gude, os
boxes (buraquinhos) feitos no meio das ruas para o percurso do jogo, permaneciam
ali por vários dias a disposição. Ninguém estragava. Durante todo tempo em que a
fase era a de jogar taco, as casinhas feitas com galhinhos de plantas ficavam por
vários dias jogados no canto das ruas aguardando para serem aproveitadas no dia
seguinte, As pedras ou tijolos (para a marcação das traves) colocadas na rua para
marcar os gols para as peladas de futebol, ninguém precisava mexer. Enfim, as ruas
eram das crianças.
A segurança total garantia e dava a tranquilidade para que os pais não se
preocupassem com as crianças brincando fora de casa.
Enquanto, atualmente, as crianças ficam reféns da TV e da Internet, naquele
tempo, em Engenheiro Goulart, elas podiam, realmente, ter uma infância.
É claro que a Internet é uma coisa maravilhosa para a ciência e para evolução
tecnológica do mundo. Porém, não se pode negar que as crianças precisam ter uma
coisa chamada de Infância.
As crianças de Engenheiro Goulart, durante a fase que englobamos nesse trabalho,
sem duvidas, tiveram infância.
Só a titulo de informação, inexistem comparações que se possa fazer entre as
atividades atuais das crianças que hoje somente teclam os aparelhos celulares,
tablets ou computadores com aquelas atividades que se tinha naquele período
abarcado por este trabalho.
Ainda que pareçam coisas de outro mundo, as crianças de Engenheiro Goulart
brincavam com Bolinhas de Gude, Pião, Taco, Malha, Balão, Pipa, Mãe da Rua, Mãe
da Lata, Pega-Pega, Palha ou Chumbo, Esconde-esconde, Mão na Mula, Futebol
(com informações adicionais à frente), Passeios de Bike, Carrinhos de Rolimãs, Jogo
de Bafo com Figurinhas, etc, etc.
AS PESSOAS DISPUNHAM DE TEMPO PARA OS OUTROS
Todas as pessoas tinham alguma ocupação. Todos cabiam no mercado de trabalho.
Em Engenheiro Goulart, era muito comum, nos casos de desemprego de alguém,
algum vizinho (amigo) interceder nos seus locais de trabalho por empregos ao
amigo desempregado. Por isso, era muito comum terem grupos de moradores de
Engenheiro Goulart trabalhando numa mesma empresa.
A título de exemplo de solidariedade e empatia, destacamos que todos sabiam dos
grupos que trabalhavam numa mesma empresa, motivados por indicação dos
amigos. No Banco Nacional do Comércio, vários amigos lá trabalhavam por
intercessão do Sidney (do Sapo), na USMC vários amigos lá trabalhavam por
intercessão do Sr. Afrânio (marido da D. Neuza), numa grande Gráfica e Copiadora
vários amigos trabalhavam por intercessão do Wilson (Fominha irmão do Marrom).
Havia através de mesmo mecanismo, os grupos trabalhando na CISPER e na
NITROQUIMICA.
Enfim, todos eram amigos e todos se gostavam. O que prevalecia era a
solidariedade e a empatia. Nos casos de infortúnios de alguém os outros se
preocupavam e ajudar.
Também, é muito comum até hoje, se verificar a existência de várias novas famílias
formadas por casais de moradores do bairro.
NADA DE REDES SOCIAIS OU INFLUENCIADORES
É claro que muitas coisas boas que aconteciam em Engenheiro Goulart estavam
associadas a uma época em que as pessoas podiam ser mais felizes. Porém, em
Engenheiro Goulart as coisas aconteciam de maneira visível para todos e de
maneira natural. Os ídolos não influenciavam ninguém. A vida era própria de cada
um.
SE TUDO ERA TÃO BOM, QUANDO E PORQUE TUDO ACABOU ?
Como antes citamos a derrocada do bairro se iniciou em 1970 e, todos os seus
motivos, vão ficar muito claro no capitulo mais à frente sobre a fundação (os
primórdios) do bairro e a derrocada total a partir de 1980.
Na fixação do período em que estabelecemos para salientar as maravilhosas
qualidades do bairro Engenheiro Goulart, mostramos a existência de três pilares a
seguir, a Amizade, o Respeito e a Segurança. Atualmente inexistentes.
Pois bem, se os pilares Amizade, Respeito e a Segurança foram fundamentais para
sustentaram as qualidades do bairro, a falta deles, ou a derrubada deles teriam sido
as responsáveis pela derrocada das qualidades do mesmo.
Como assim? Perguntarão algumas pessoas! Quem falou isso?
Bem, não precisamos nem vamos discutir. Vamos juntos analisar:
Será que foram os moradores antigos que mudaram seus comportamentos? Será
que, de repente, os antigos moradores decidiram não mais serem amigos dos
outros?
Será que os antigos moradores, de repente, decidiram serem agressivos com os
outros, ou ate mesmo contratar capangas para atacar os outros?
Será que juntaram seus familiares para decidirem cortar definitivamente relação
com os vizinhos, ignorar o passado e até mesmo querer que todos se explodissem?
Certamente que não!
O que aconteceu é bem simples de entender. Basta que observemos o que mudou
entre a fundação do bairro e o ano de 1970.
Nos capítulos a seguir vamos aprender como tudo se formou em Engenheiro Goulart
e em seguida poder comparar com os fatos e causas a partir de 1970, culminando
com a derrocada das qualidades do bairro.
COMO TUDO COMEÇOU
Nos idos anos de 30, A Estrada de Ferro Central do Brasil construiu uma linha férrea
que liga (até hoje) São Paulo ao Rio de Janeiro. Obedecia a lógica da menor
distância entre dois pontos, portanto quanto mais reta melhor.
Entretanto, por razões econômicas e para atender uma indústria de propriedade de
uma família mega-investidora da época (a Família Matarazzo), a estrada de ferro
aceitou construir uma linha variante em relação à linha principal, Até então, a
indústria citada utilizava-se do transporte rodoviário já que estava instalada há
poucos quilômetros da estrada velha Rio-São Paulo (atual estrada de São Miguel).
A linha Variante, bem conhecida dos que se utilizavam dos trens como transporte,
foi construída para atender a uma das indústrias da tal família e, obviamente, para
desenvolver a região. Falamos da indústria que atualmente está anexada à estação
de Ermelino Matarazzo.
A mencionada linha variante da estrada de ferro passaria por entre algumas
chácaras visando atender a indústria citada (Matarazzo), bem como, a outra
indústria, na época projetada, a CISPER. As estações teriam também, como
finalidade a criação de bairros classificados como sendo cidades suburbanas
copiando o que já era comum nos países Europeus e nos Estados Unidos.
Lembramos a todos que existia, além da linha variante, a linha Tronco.
Inauguração da Estação Engenheiro Goulart:
Consta que a estação Engenheiro Goulart foi inaugurada precisamente, no dia 1o de
Janeiro do ano de 1934.
Consta também que os antigos trabalhadores da estrada de Ferro, especificamente
os que construíram as estações mais próximas da de Engenheiro Goulart decidiram
instalar-se no novo bairro para trabalhar para os chacareiros que ali existiam, ou
por sonhar com a oportunidade de trabalhar numa grande indústria (à construir) ou
ainda, alguns deles, sonhando em se estabelecer num novo local. Falava-se
também, na época, que havia um projeto de um Banco de Investimento Imobiliário
para Engenheiro Goulart que seriam construídas casas populares em breve.
Diante disso, um chacareiro proprietário de terras próxima à linha férrea e da
estação Engenheiro Goulart, o Sr. Estanislau de Camargo Seabra, em função dos
anunciados projetos, decidiu lotear parte de sua chácara e vender os lotes para
aqueles trabalhadores interessados em fixar morada por ali.
Aproveitou-se do recuo do terreno utilizado pela Estrada de Ferro (deixado para a
moradia do Chefe da Estação de Engenheiro Goulart e para guardar peças e
materiais usados) para criar a Rua Principal (também conhecida na época como Rua
15) de uma nova vila (nossa bastante conhecida como Vila Silvia).
Sugerimos visualizar, a seguir, o mapa de arruamento (rudimentar) e consequente
loteamento feito pelo Sr. Seabra, o qual seria acoplado ao loteamento oficial de
Engenheiro Goulart, num futuro próximo, daquela época.
A VILA SILVIA
Basicamente, pode-se observar que o mencionado arruamento da Vila Silvia
contemplava o espaço entre as atuais Ruas São Francisco do Vermelho e Antônio
Luis Espinha, na visão horizontal e, na visão vertical entre a Rua Augusto Simões
Lopes e a Rua Principal (atualmente a continuação da Av. Assis Ribeiro. Contava,
também esse arruamento com as atuais Ruas Galera e a Gabiarra.
Observação:
Mais sobre a Vila Silvia, sugerimos e recomendamos que acessem (no Google) um
artigo publicado pelo Nelson Barboza Leite (filho do Sr. Leopoldo) sob o nome de
"Lembranças Inesquecíveis de Engenheiro Goulart".
Apesar de o ênfase do trabalho do Nelson ser quase que totalmente relativo à fatos
e pessoas da Vila Silvia, certamente será importante rememorar fatos e pessoas
conhecidas sobre o mesmo período que este nosso trabalho pretende abarcar.
VILA SILVIA – PRECURSORA DO BAIRRO ENGENHEIRO GOULART
Para que não fiquem coisas vagas e sem conhecimento de todos, é importante
salientar que a Vila Silvia não era uma comunidade dentro de um bairro chamado
Engenheiro Goulart. É exatamente o contrário. A Vila Silvia foi criada antes do
arruamento e do loteamento do espaço que sempre conhecemos como sendo
Engenheiro Goulart.
Portanto, o bairro Engenheiro Goulart, realmente, é o desenvolvimento de uma
comunidade chamada Vila Silvia.
A CRIAÇÃO DE ENGENHEIRO GOULART
ARRUAMENTO, LOTEAMENTO O POVOAMENTO
O anunciado investimento imobiliário antes mencionado, trouxe atraentes
novidades, para a época. O Banco de Investimentos primeiro adquiriu todas as
chácaras locais próximas a estação de Engenheiro Goulart para a formação do
bairro (exceto o que já vimos como sendo a Vila Silvia. Depois, loteou e ofereceu
terrenos vazios, bem como, casas prontas. Naquela época o Banco construiu 60
casas, ditas populares, em terrenos de 10 x 30 m, totalmente isoladas umas das
outras e bastante confortáveis, para a época. Tudo isso com um valor de entrada
facilitada e com um financiamento em 10 ou 15 anos, cujas parcelas eram em
valores fixos e se pareciam com os valores de um aluguel praticados na época.
As casas contemplavam pessoas até então sem casa própria. Não se tratava de
exploração imobiliária. Não se tratava de aquisições com a finalidade de locação
nem para revenda. Os novos moradores pensavam em fixar moradia no local. O
mesmo valia para os adquirentes de lotes que tencionavam construir suas casas.
As casas eram de muito bom padrão para a época. Todas as casas tinham face
Norte, em terrenos em aclive com instalação de Energia Elétrica e Agua Encanada.
Tinham como dependências 2 quartos, 1 sala, 1 cozinha e 1 banheiro, um bom
recuo frontal e, nos fundos, um bom quintal.
Sugerimos que visualizem a seguir, um mapa do loteamento, sem escala e sem
curvas de nível (pois isso seria impossível retratar numa folha de papel).
Lembramos que as Ruas foram nomeadas pelas letras do alfabeto, a maioria delas
(as mais centrais) com o nome de profissões que se iniciam com as letras do
alfabeto, utilizadas.
A seguir, listamos as ruas como eram chamadas e como são conhecidas hoje:
Rua A – Rua dos Artífices. Atualmente, parte continua como Rua dos Artífices (hoje)
e parte continua com o nome de Rua Augusto Simões Lopes,
Rua B – Rua dos Bancários, atualmente Rua Antônio Roberto de Almeida
Rua C – Rua dos Comerciários, atualmente Rua José Joaquim da Luz
Rua D – Rua dos Desenhistas, atualmente Rua Augusto Correa Leite
Rua E – Rua dos Economistas, atualmente Rua dos Economistas.
Rua F – Rua dos Farmacêuticos, atualmente Rua Dr. Alfredo Frances
Rua G – Rua dos Geógrafos, atualmente Rua Luis Antonio de Oliveira
Rua H – Rua dos Horticultores, atualmente Rua dos Horticultores
Rua I – Rua dos Industriários, atualmente Rua Goma de Olibano
Rua J – Rua J, atualmente Rua J
Rua K – Rua K, atualmente Rua K
Rua L – Rua L, atualmente Rua L
Rua M – Rua M, atualmente Rua M
Rua N – Rua N, atualmente Rua N
Rua O – Rua O, atualmente Rua O
Rua P – Rua dos Professores, atualmente Rua dos Professores
Rua Q – Rua Q – atualmente Rua Barcarena
Rua R – Rua R, atualmente e a Rua Alto do Pageú
Rua S – Rua S, atualmente é a expansão da antiga Rua Galera
Rua T – Rua T, atualmente Rua Martins dos Santos
Rua U – Rua U, atualmente Rua Monsenhor Anacleto Coutinho
Rua V – Rua V, atualmente Rua Humberto Marques
Avenida 1 – atualmente Avenida Rubens Fraga de Toledo
Avenida 2 – Av. Central, atualmente Avenida Alfredo Ribeiro Arruda
INFORMAÇÕES ADICIONAIS SOBRE AS
CARACTERÍSTICAS DO BAIRRO
Diante da facilidade para a aquisição dos imóveis construídos pelo banco, somada a
rapidez com que os trens transportavam seus passageiros desde o novo bairro até a
estação Presidente Roosevelt (em menos de meia hora) e a tranquilidade
observada foram os principais incentivos para o povoamento desse bairro que,
originariamente, se chamaria Cidade Suburbana de Engenheiro Goulart.
Para a complementação e curiosidade sobre o nome das estações e seus bairros,
informamos que cada uma das estações construídas ao longo da via Férrea fazia
uma homenagem aos engenheiros e demais colaboradores que faleceram durante a
construção das mesmas.
Considerando que Engenheiro Goulart não era passagem para outros bairros (até o
inicio dos anos 70), ou seja, o bairro era o fim da linha de outros modais de
transporte que não os trens, Não havia linhas de ônibus que atendiam ao bairro,
portanto, ninguém além dos seus moradores, o frequentavam. Os passageiros dos
trens que por ali passavam, ao parar na estação, tinham como visual do bairro
somente um talude de aproximados 6 metros de altura (o da escadaria da estação).
Ou seja, ficavam com a impressão que nem moradores havia no bairro. Como não
havia iluminação das vias públicas, à noite nada se enxergava do bairro.
Por conta disso, nem de dia nem de noite, os passageiros que por ali passavam não
podiam enxergar nada de atraente no bairro. Portanto, sem o visual, as pessoas
estranhas ao bairro não se interessavam em conhecê-lo.
Com isso, os moradores tinham a exclusividade de transito e na convivência nas
ruas. As amizades eram cada vez mais fortes, visível e possível. A união entre os
moradores só se fortalecia, a cada dia. Tanto é que até hoje se observa a existência
de várias famílias que foram constituídas a partir da união entre os jovens
moradores locais. Os jovens do bairro se conheciam, desenvolviam amizade,
namoravam e se casavam entre eles.
As principais dificuldades oferecidas no bairro, no inicio, eram as opções de
comércio e a condução para outros bairros ou para o centro da capital, o que
limitava o deslocamento, que ficava somente por conta dos trens. Também se
observava uma deficiência no comércio.
O Sr. Vergílio, um Português que tinha uma chácara entre Engenheiro Goulart e a
fabrica da Cisper (local denominado como Vila Nova) que com a sua charrete,
fornecia o leite para a população. Tinha o Sr. Armando, morador da Penha, com a
sua carroça/caçamba fornecia o Pão, O Sr. Hélio, também morador da Penha, com a
sua carroça, fornecia as frutas e leguminosas. Os cereais, normalmente eram
comprados ou na Penha (na Casa Barros ou na casa Rossi) ou ainda na Vila, num
armazém dos Arrudas.
PONTOS DE COMÉRCIO E OFERTA DE SERVIÇOS
NO BAIRRO
O primeiro armazém para atendimento do bairro (instalado na Vila Silvia) chegou
em 1947 e era de propriedade dos primos Zeca e Agostinho Arruda. Não demorou
muito até que o Sr. Francisco / D. Valeria abrisse um armazém na Praça. Na mesma
época, o Sr. Nicolau abriu um armazém na Rua dos Bancários, o Sr. Adalberto abriu
um açougue, na praça. O português Sr. Amílcar abriu uma quitanda e o Sr. Pignata
abriu a primeira farmácia. E por ai foi-se criando a autossuficiência de suprimentos
no bairro. A primeira padaria do bairro foi inaugurada no ano de 1954, pelos irmãos
Francisco A. Lopes e Serafim A. Lopes junto com o cunhado Ernesto Augusto
Pinto. A partir de 1965 a Padaria fica com Sr. Ernesto até a presente data 1922
(hoje sob os cuidados de seus filhos). Em 1960, o Sr. Serafim abre um Bar e um
armazém com os seus filhos Ernesto, Chico e Guilherme existente até hoje, na Rua
dos Bancários esquina com Avenida Alfredo Ribeiro de Castro.
Mais a frente o Sr. Remídio / D. Ana abriram um armazém nos altos do bairro.
Alguns antigos moradores pioneiros do
bairro moradores em casas não construidas pelo Banco
Iniciamos com a família do Sr. Pimenta, o chefe da Estação (na época) pai da
Iracema, Gemima, Sarah, Salomão e do Isac), Sr. Prudêncio Campos, pedreiro, (pai
do Wilson, Nelson, Janete e Edson) Sr. Mario chacareiro (pai do Vicão), Juquita (ex-
funcionário do Banco, depois casado com a Janete filha do Sr. Prudencio) O
Chiquinho, funcionário do Banco CNI e depois do Bradesco (pai do Reginaldo, da
Suzana e da Sonia), o Sr Nunes (pai do Mané, do Antônio Nunes, da Clara e da
Lourdes) Sr Afonso (pai do Alcides, Selma e Amaral) Sr Santos pai do Dico, do
Catuta do Alencar e da Marlene depois casada com o Mané filho do Sr. João dos
Cavalos, o Sr. Djalma (o que cuidava, junto com o Albino da água no bairro) pai do
Bene, Mané, Jorge e Antonia), Srs. Martins (dois irmãos) um deles casado com a D.
Carmen tinha os filhos Diva, Clara e o Mauricio, o outro, casado com a D. Irma,
tinham os filhos Chiquinho/ Nelson/ Jacinto, Maria e Osvaldo, a Familia dos Pinedas,
Sr. Francisco e D. Quintina, com os filhos Samuel casado com D. Ercilia tinham os
filhos Claudio, Sergio e Alessandra, O Sr. Renato Assis casado com a D. Aladia
Pineda tinham os filhos Frederico, Zé Henrique e Flavio. O Sr. Adalberto casado com
a D. Olga pais do Álvaro e da Lucia, A família do Maurão e do Luizão, A família
Oliveira do Ronaldo, do Nivão, do Cesar e do Gilberto, a família ndo Sr. Romeu de
Oliveira, pai do Marcilio e da Terezinha, do Sr Padia (pai do Fernando, Marilene,
Angela) do Sr. Galo (pai do Edgar, Mingo), Sr. Alipio do Grupo (pai Alice e da
Mercedes) Sr. Alberto barbeiro (Pai do Pedrinho e da Irene), Sr. Maretti, (marido da
D, Tereza enfermeira, pai no Ze Roberto, da Lucia e da Ana), família de espanhóis
com as filhas Maria Soledade e Encarnacion (Nena), Sr. Lopes Barberis, pai do
Orlando e da Benildes, Sr Lauro diretor do grupo escolar (pai do Laurinho, do Rui,
do Amauri, da Rosana e da Eliane), Sr. Nicolau (pai do Mauro mudinho, da Nilza, do
Antonio, e do Zé), Sr Afranio marido da D. Neuza, Sr. Silvio, bicicleteiro, marido da
D. Zuleika, Sr. Baltazar (baleiro) pai do Antonio Carlos, Sr. Jair, o Cobra, os irmãos
Jonas, Paulão e Rute, Sr, Nardo, pai do Ninho da Elizabete e da Bernadete, Sr.
Medeiros pai do Djalma, Sr. Peixoto casado com D. Nazareth pais da Cecilia, Zé
Francisco, Belinha, Cidinha e Toninho, D. Rose (professora), Sr. Romeu Zulato e
família, Sr. Cidinho e família, Sr. Nelson e familia, Sr. Elias marido da D. Eulalia e pai
da Leila, Sra. Vera Pineda e as filhas Kezia e Keila, Sr. Antonio Rocha, a família dos
portugueses do bar (na Assis Ribeiro próximo à Praça) com as filhas Maria José e da
Maria Emília, Sr. Faria com os filhos Teobaldo e Virginia entre outros.
Citamos agora alguns moradores da Vila Silvia não citados pelo Nelson no trabalho
"lembranças inesquecíveis de Engenheiro Goulart", a Família Polato (Alberto, Nair e
Waldemar) a família do Sr. Solera (sogro do Heitor) pai da Salete, da Arlete, do
Mauro e da Gloria, Sr. Norila (pai do Heitor e da Herna), o Sr. Raimundo pai da
Romilda, do Renato, da Ester, da Bete, da Vera, da Marluce e da Vasti (antigos
moradores do castelo) entre outros.
Alguns pioneiros no bairro,
moradores em casas construídas pelo Banco
Av, Assis Ribeiro : Sr. Agostinho Arruda pai da Nilce, Zilda e Lenita.
Rua dos Artífices, Sr. João dos Cavalos, pai do Mane, do Gervazio, do Mario, Do
Espanhol (baixinho de chapéu), pai do Guido, e do Vanderley, família do Nelson
Gordela, etc
Rua bancários no lado direito subindo a Av. Central, a família do Pina,
No meio da bancários (lado esquerdo subindo a Rua dos Horticultores), pai do
Ervão, Sr. Almeida (pai da Annette) Sr Moreira, Sr. Alvaro, Sr. Olivieri, Sr. Fernando
pai do Robertinho e do Nenê.
no final da Bancários – Sr. Cabral, pai do Cata e da Neuzinha, Sr. Cabralzinho pai
do Bacurau, da Marise e do Eduardo, Sr. Ivo, Claudio, Neno (dos balões), Noemia,
Mirtinho (Newton), Sr. Serrano e D. Dalta pais do Marcial e do Devair;
Rua Desenhistas – lado direito da Rua dos Horticultores, subindo – Sr. Oscar, Dr.
Edmundo, a família Bellato do Zoroastro, do José Maria e da Maria.
Meio da Desenhistas – a esquerda da Horticultores, Lucili - Taisa, Antonio Carlos,
Joao Carlos - Marines, Valderez, Feliciano, Demostenes, Vitor, etc,
No final da Desenhistas: Sr. Djalma, marido da D. Caçula pais do Celso, do Sergio e
do Djalminha,
Rua dos Economistas, lado direito subindo a Rua dos Horticultores - Dona Isabel, Sr,
Laerte, pai da Mara e da Sueli, Sr. Fernandes pai do Celso e do Clovis, Sr. Juliano
pai da Maria Luiza gordinha, Sr. Ferri, pai do Alexandre Fininho, Diva, Carlito, Josina
(Nenê) e Sandra, Sr. Alfredo, pai do Alfredinho e da Arlete, Sr. Pineda, pai do Irany,
da Vera e do Dinho, Sr. Antonio, pai da Marcia e da Maria Cecilia, D. Ilíria, Sr. Arthur
Baurich e D. Maria pais da M. Luiza e da Vera Lucia, Jacareí pai da Mariazinha,
Maravilha, Rosa e João.
Destaques / Personalidades de Engenheiro Goulart Antigo
Mesmo considerando que todos os moradores pioneiros do bairro eram pessoas
idôneas, cabe-nos destacar alguns moradores que, em especial, além da
idoneidade, obtiveram o respeito e a consideração de todos os outros moradores do
bairro porque realmente se esforçaram para que o bairro se desenvolvesse:
Medeirão.
Iniciamos destacando o Sr. Francisco Medeiros. Conhecido por todos como Medeirão
porque, realmente, tratava-se de um Grande Homem Grande.
Com sua grande estatura e com um vozeirão inconfundível, o Medeirão chegou ao
bairro no ano de 1949, oriundo de Corumbá no Mato Grosso. Inicialmente assumiu
a atividade, hoje inexistente, de Sub-Delegado de Policia do bairro.
Além disso, ele era um empresário do ramo da construção civil (fabricava ladrilhos
de cimento na Penha) e, em Engenheiro Goulart, construiu além de sua moradia
uma sala de projeção de filmes (cinema) que depois de algum tempo de exploração
ampliou suas atividades com a oferta de bailes, naquele salão.
Em 1958 liderou o lançamento da pedra fundamental para a construção da Paroquia
de Santo Onofre. Contou com o apoio e a confiança dos católicos do bairro, em
especial dos portugueses Sr. Francisco, Sr. Serafim e Sr. Ernesto além do Zéca
Arruda, do depósito, arrecadando, através de um "Livro de Ouro" contribuições para
o inicio das obras da Paroquia de Santo Onofre. Durante o tempo da construção,
várias famílias católicas, com suas barracas nas quermesses, arrecadaram os
recursos necessários para a conclusão das obras.
Sr. Oscar de Oliveira.
Era um alto funcionário da CNI, empresa investidora em habitação, que construiu as
casas financiadas em Engenheiro Goulart. Pelo fato de ser a pessoa responsável
pelas obras das casas e pelo atendimento / corretagem e venda das que chamamos
do "Casas do Banco", ele residiu no bairro até que todas as casas tivessem sido
vendidas (aproximadamente até 1958). Mesmo ocupando um alto cargo na CNI, ele
era uma pessoa simples e muito educada que atendia a todos, claro que
principalmente aos adquirentes das casas. Tudo o que se referisse ao financiamento
e na facilitação dos pagamentos. Ou seja, sempre que algum adquirente tivesse
qualquer dificuldade no pagamento do financiamento do seu imóvel era ele quem
sempre auxiliava nas negociações, no parcelamento e nas demais soluções
necessárias junto a CNI. Em 1958, a CNI foi encampada pelo Bradesco, momento
que ele deixou de ser o responsável pelos contatos com o bairro.
Sr. Chiquinho.
Certamente foi um homem mais conhecido e popular do bairro. Conhecia a todos e
era conhecido por todos. Era uma pessoa simpática e de fácil relacionamento. Além
de, no inicio, ter sido o corretor das casas do banco, atuava em outras atividades,
juntamente com o Sr. Oscar, nos trabalhos de manutenção das vias públicas e na
distribuição de água no bairro. Em 1958 o Bradesco encampou a CNI e o Sr. Oscar
mudou-se do bairro o Chiquinho passou a ser o representante do Bradesco no
bairro. Trabalhavam com o Sr. Chiquinho na manutenção das ruas e da Agua os Srs.
Djalma e Albino, também muito conhecidos de todos.
Sr. Olivieri.
O Sr. Olivieri, antigo morador da Rua dos Bancários esquina com a Rua dos
Geógrafos, era um ativo participante da Sociedade Amigos de Engenheiro Goulart.
Juntamente com sua esposa Helena e suas filhas (Geny, Maria Rosa e Tania)
sempre foi muito atuante nos assuntos que se referiam ao desenvolvimento do
bairro. Era muito bem relacionado politicamente e sua atuação foi essencial na
implantação do primeiro Grupo Escolar do bairro (Grupo Escolar de Engenheiro
Goulart), no fim dos anos 40 em um prédio de madeira. Depois conseguiu que o
governo estadual construísse um prédio moderno apropriado e em alvenaria para
substituir a velha escola, inaugurado no inicio de 1956. Foi decisivo na implantação
do Parque Infantil da Prefeitura, além de muito contribuir para a implantação da
linha de ônibus para o bairro.
Em 1960, cedeu espaço em sua residência para que sua esposa Helena trouxesse
para o bairro uma agência dos Correios. A D. Helena foi a primeira agente postal
dos correios no bairro). Lamentavelmente, em 1964, com o falecimento da D.
Helena os serviços postais do bairro tiveram que ser transferidos para a
responsabilidade da Sra. Jamile, na Vila Silvia.
COISAS E EVENTOS QUE SE PERDERAM COM O TEMPO
1 - Existia uma grande propriedade, com lago exclusivo, bem no limite leste do
bairro, conhecido com Castelo, de propriedade da família Arantes.
No alto do grande terreno desse Castelo (bem próximo da Estrada do Cangaíba),
haviam grande pedras (local conhecido como Pedreira) onde também, existia uma
mina de água que alimentava um riacho e a Lagoa do Castelo. Passeios ao local
eram frequentes entre os moradores da época.
2 - Em 1954 foi inaugurada uma padaria (na Av. Central) do Sr. Francisco, de seu
irmão Sr. Serafim e de seu cunhado do Sr. Ernesto.
3 - Cruzeirinho – No cruzamento das ruas Industriários e Economistas, no fim dos
anos 40 foi construída, pela CNI uma capela, à céu aberto, que era denominada
como Cruzeirinho. Mesmo sem ter havido uma sequencia de regular de cultos
religiosos acabou sendo derrubada com a invasão de moradores sem-teto.
4 – Lagoa Suja - Se continuássemos uma caminhada através da continuação da Rua
dos Industriários, por entre um espaço livre e a vegetação, na direção a uma subida
que alcançaria a Estrada do Cangaíba, encontraríamos, no lado esquerdo, uma
pequena lagoa de agua bem barrenta e suja onde as crianças, escondidas dos seus
pais, se refrescavam nos dias quentes de verão.
5 - Córrego da Rua dos Industriários – havia uma mina de agua próxima da esquina
das Ruas Desenhistas e dos Industriários que alimentava um córrego, à céu aberto,
onde a água represada servia de laser das crianças nos dias quentes.
6 - Varzea: Todo espaço abaixo da linha do trem era conhecido e denominado pelas
pessoas do bairro como sendo a Varzea. Naquele espaço existiam muitas lagoas,
chácaras e alguns portos de Areia, o do Ribeiro e os da família Lajeanne. Logo
abaixo da linha do trem, na direção da Estação ferroviária, havia um campo de
futebol do time conhecido como Corinthinha de Engenheiro Goulart. No lado direito
desse campo ficava o Poço Artesiano que alimentava de água o bairro. As suas
bombas levavam a água extraída para um reservatório no final da Rua dos
Horticultores para que, de lá, fosse distribuída para todas as casas do bairro.
Como curiosidade, existia planta comum nessa área da várzea que produzia um tipo
de fruto chamado de "Banana do Brejo". Na parte superficial dessa "fruta" tinha
grãos doce, porém na camada inferior aos grãos, quando acessada pela boca,
produzia no guloso feridas do tipo queimaduras.
7 - Futebol; como ainda hoje se diz que o futebol é o esporte mais popular e
apreciado no mundo todo, isso não era diferente em Engenheiro Goulart. Para
avivar a memoria dos antigos moradores do bairro, citamos a existência de vários
campos de futebol, alguns aqui considerados oficiais e outros não. A saber:
7A - O Campo do Corinthinha – Ficava abaixo da linha do trem. Suas medidas eram
próximas a de um campo oficial. Ao lado do campo existia um barracão destinado
ao vestiário. O clube não tinha uma sede fixa. De quando em vez, organizava e
realizava alguns bailes para os familiares dos aficionados pelo time no salão do
Medeirão.
7B - Na Vila Silvia, quadrilátero entre a Rua São Francisco do Vermelho e a Rua
Gabiarra (enquanto não haviam casas), ficava o campo do União Vila Silvia. Tal qual
o do Corinthinha tinha medidas oficiais. Basicamente formado por moradores
daquela vila. Sua sede era na rua principal (Rua Quinze). Iniciada a ocupação pelos
proprietários de terrenos naquele espaço, esse campo foi transferido para um
espaço abaixo da linha do trem, na altura do centro da Vila Silvia;
7C - Bem atrás do Cruzeirinho (no fundo do cruzamento das ruas Economistas e
Industriários), ficava o Campo do Zé Barbudo, também com medidas oficiais.
Utilizava de um grande espaço desocupado, onde atuava um time conhecido como
o do Zé Barbudo.
7D - Vários outros campinhos, sem as medidas oficiais, foram construídos sem a
conotação de ser de um time ou de um clube definido. Totalmente para o futebol
amador. Tínhamos um na Rua dos Economistas, em frente a casa do Sr. Alipio (o do
Grupo Escolar), outro na frente da casa do Mané Nunes (fazia fundos com a casa do
Sr. Nicolau Carvalho), um na Rua dos Bancários, em frente ao Armazém do
Guilherme, e outro no espaço entre a Praça e a Rua dos Bancários (em frente a
Igreja Santo Onofre). Não poderíamos deixar de citar o campinho no jardim da casa
do Sr. Oscar (esquina das Rua Desenhistas com a Rua dos Horticultores). Além dos
campinhos citados, também podiam ser improvisados outros campinhos em
qualquer rua, já que pela ausência total de transito, bastavam duas pedras
marcando o espaço das traves, para a prática do futebol.
8 – Acidente de trens. No dia 05 de junho de 1959, no finalzinho da tarde,
aconteceu um terrível acidente ferroviário há 200 m da estação de Engenheiro
Goulart, quando 2 trens de passageiros colidiram-se frontalmente. Com 50 vitimas
fatais, esse foi um dos maiores acidentes ferroviários no Brasil. Por sorte, nenhum
morador do bairro sofreu qualquer dano. É que, a saída de passageiros da
plataforma da nossa estação era no inicio dela (pra quem chegava do centro), por
isso, era de costume dos nossos usuários dos trens utilizarem-se dos últimos vagões
dos trens, enquanto que as pessoas afetadas estavam nos primeiros vagões.
9 - Banho em Lagoa – era comum que, nos finais de semana, vários pais
acompanhassem os seus filhos para banhos numa lagoa logo abaixo do campo do
Corinthinha. Aproveitavam que essa lagoa tinha aguas rasas e limpas.
10 - Clube de Malha e Bocha Unidos de Engenheiro Goulart - O clube, de maneira
precária, teve a sua primeira cancha construída e fundada em 21/04/1960. Estava
instalada no local que seria o espaço de uma calçada da Rua dos Comerciários que,
na época, era totalmente desabitada. Depois de alguns anos, mudou-se para a Rua
dos Professores, em terreno próprio e em construção apropriada, funcionando até
os dias de hoje.
11 - O Primeiro armazém localizado (realmente) em Eng. Goulart (na praça) foi o do
Sr. Francisco (nome verdadeiro Pranas Jasiskis) e da D. Valéria. O nome incomum
do Sr. Francisco se devia ao fato dele ser Lituano.
12 – Como mencionada, a construção da Igreja Sto. Onofre se iniciou em 1958 e,
consideramos como digno de menção o fato "sui generis", no período da mesma. É
que, naquela mesma época, era construída a Igreja Adventista que fica ao lado.
Como demonstração de civilidade, o Padre João Carlos se tornou amigo do pastor
da Igreja Adventista a ponto de trocarem favores. O padre emprestava a betoneira
e até alguns ajudantes para encher as lajes daquela igreja enquanto o pastor
fornecia o vinho de produção própria, para as missas, sem quaisquer rivalidades.
Pessoas bastante conhecidas por todos no bairro:
- o Sr. Nicolau, além de ter tido um armazém, durante algum tempo era
quem recebia as contas de água dos moradores.
- o Sr. Prado era o massagista do bairro todo. Além disso tinha profundos
conhecimentos da fabricação de linguiças. Foi ele quem orientou e ajudou o Sr.
Nardo na fundação e partida da fábrica de linguiça do bairro.
- a Dona Judite era a mais famosa benzedeira do bairro.
- A Dona Tereza enfermeira, esposa do Sr. Maretti, era quem a todos atendia na
área da saúde, desde os tempos que nem existia farmácia no bairro.
- o Sr. Nardo foi dono de um pequeno armazém num porto de areia (na várzea),
acabou se tornando um dos maiores e bem sucedidos comerciantes do bairro, por
fabricar Linguiça de boa qualidade.
Outras pessoas inesquecíveis pela popularidade:
Zé Matarazzo:
Pessoa que, pelos percalços da vida, ficou sem ter onde morar. Conseguiu a
anuência dos irmãos Ernesto e Chiquinho para morar num barraco que funcionava
como vestiário do campo do Corinthinha, como se fosse um zelador. O apelido
Matarazzo referia-se ao fato dele ter sido, no passado, funcionário de uma das
indústrias daquela família bem como por estar sempre bem trajado (ainda que com
roupas puídas) e estar sempre bem penteado.
Gervazio:
Rapaz elegante e sempre bem trajado. Era admirado pelo fato de ser um exímio
dançarino. Nos bailes que frequentava conseguia plateia para seus passos geniais
sempre que dançava com uma partner à altura.
Paulo Draga:
O Paulo Draga era um operador de gigantes máquinas patrol (utilizadas para a
terraplanagem de terrenos). Pela sua atividade, tinha conseguido músculos como a
de um super-herói ou de um atleta de primeira linha. Apesar de ser um homem
bastante forte sabia-se do seu perfil gentil e de bom comportamento.
Lamentavelmente sofreu um acidente com a sua máquina que lhe custou o
comprometimento e alguns músculos. Por conta disso, sua massa muscular derreteu
por completo.
Zé Barbudo,
Aficionado por futebol, eletricista de profissão, sempre esteve a frente dos times
amadores de futebol no bairro. Considerava-se dono e técnico dos vários times em
diferentes épocas. Revoltava-se com seus jogadores, com os adversários e com os
árbitros sempre gritando em altos brados, caso seus times não obtivessem os
resultados positivos que ele queria.
Relacionado ao assunto futebol, citamos a galeria dos craques de bola:
1 - Vicão,
(Flavio) Filho do Sr. Mario e da D. Isaura muito bom de bola. Não demorou muito
pelos campos do bairro. Tão logo deixou a adolescência e já deixou os times do
bairro para treinar e para se profissionalizar, sendo contratado pelo Corinthians.
Depois de algum tempo deixou o Corinthians e foi jogar no Volkswagen Clube, time
também profissional da segunda divisão.
2 - Odair,
Apesar de morar na Vila Silvia, sempre frequentou o nosso bairro por jogar no
Corinthinha. Ppor ser um craque de futebol conseguiu se profissionalizar no Linense,
time do interior de São Paulo.
3 e 4 - Jonas e Marcilio,
Ambos foram craques contemporâneos na adolescência. Conseguiram, na mesma
época, a oportunidade de serem atletas do São Paulo Futebol Clube. Para uma
projeção, depararam-se com as dificuldades naturais nesse esporte. Mas mesmo
assim conseguiram contratos do tipo passe-livre, como atletas do tricolor.
5 - Dico.
Também craque de bola. Popular e querido no bairro. Atuou sempre no esporte
amador (de várzea). Mesmo sendo bom de bola, nunca conseguiu profissionalizar-se
apesar de várias tentativas em clubes de ponta. Também era sempre lembrado
pelas suas atitudes (engraçadas e, em muitas vezes), inusitadas em relação à vida.
Pereirinha,
Profissional de vendas, bom de papo, o Pereirinha era um homem popular e por
isso, conhecido e querido por todos. Amigo para todas as horas. Infelizmente, a
exemplo do que aconteceu com o Paulo Draga, um acidente automobilístico tirou-
lhe alguns movimentos e a alegria visível que tinha.
Jacy do Cavaquinho,
Profissional da musica, o Jacy tinha a admiração de todos os que o conheciam. Era
o orgulho do bairro na área musical.
Mauro mudinho,
O Mauro era uma pessoa muito conhecida por todos no bairro. Pela deficiência
auditiva era de difícil comunicação. Bem cuidado e educado pelos pais, era amigo
de todos, porém, não muito incomum, às vezes, se tornava uma pessoa violenta.
Heitor,
Homem de grande estatura era amante dos carros, desde a sua adolescência. Sua
vida eram os carros e suas mecânicas. Jamais se aproveitava de sua grande
compleição física para brigas ou desavenças. Era sempre gentil. Morreu jovem
fazendo o que mais gostava de fazer (num acidente de transito), dirigindo.
COMO, QUANDO E PORQUE TUDO ACABOU:
Depois de termos relembrado uma parte de tudo o que era bom no bairro, agora é
hora de avaliar o porquê tudo acabou. Para isso, teremos que voltar ao inicio desse
trabalho, no capitulo que tratou da formação do bairro.
Lá registramos que, no inicio do bairro, as pessoas que pra lá foram tinham um
mesmo objetivo de fixação e de morada definitiva no local.
Depois mostramos que o bairro era o fim da linha. Ou seja, não era passagem de
condução (além do trem) para nenhum outro bairro.
Também que, os passageiros do trem, ao passar por Engenheiro Goulart, não
enxergavam nada do bairro e nem se interessavam em conhece-lo já que não viam
nenhum atrativo para visitar o bairro, afinal de contas, aquele bairro nem dispunha
de outra condução para o centro, além do trem.
(repetimos que: Os passageiros dos trens que por ali passavam, ao parar na
estação, tinham como visual do bairro somente um talude de aproximados 6 metros
de altura (o da escadaria da estação). Ou seja, ficavam com a impressão que nem
moradores havia no bairro. Como não havia iluminação das vias públicas, à noite
nada se enxergava do bairro).
Entretanto, no fim dos anos 70, a prefeitura decidiu abrir passagem de Engenheiro
Goulart para outros bairros, esticando a Avenida Assis Ribeiro até a Estrada de São
Miguel, passando por Ermelino Matarazzo e, logo em seguida, criando um corredor
de ônibus com a implantação do ônibus "Miguelão" para atender além de
Engenheiro Goulart, Ermelino Matarazzo e São Miguel.
Pronto !!! Muitas e muitas pessoas daqueles bairros que usavam o Miguelão
passaram e ter o visual agradável, descampado, limpo e de paz que Engenheiro
Goulart oferecia.
A partir disso, os usuários do "Miguelão", moradores em São Miguel e em Ermelino
perceberam que havia muitos terrenos vagos para a compra e até mesmo, em
ultimo caso, para uma ocupação ilegal.
Também ficou claro para os moradores daqueles bairros que em Engenheiro Goulart
teriam um acesso mais rápido para o centro. Além de algo novo, perceberam que
era mais rápido chegar ao centro em, pelo menos, meia hora a menos de viagem.
Pronto, iniciou-se a visitação e o aumento da procura por casas no bairro.
Salientamos que esses novos interessados em habitar no bairro não tinham o
mesmo objetivo dos moradores iniciais que seria a de uma estabilidade habitacional.
Então, também por questões de boa oferta de transporte público, de repente,
Engenheiro Goulart passou, a ser um local muito interessante para morar. Dai,
começou a exploração e explosão imobiliária. Muitas pessoas que tinham terrenos
vazios tiveram facilitadas as suas vendas, além da natural valorização dos lotes e
das casas construidas, já que quanto maior era a procura maior seria o preço.
Também, para os mais desafortunados (os sem tetos) a partir dessa janela criada
em 1970, esse local passou a ter facilitado o encontro de espaço para morar. Essa
associação de fatos, contribuiu para a explosão demográfica do bairro. Bom para os
que chegavam e ruim para os que ali já estavam.
Mesmo entendendo que todos merecem e precisam de um teto, essa nova situação
resultou na construção de muitos barracos do dia para a noite e uma multidão de
pessoas sem o objetivo da Amizade, Segurança e Respeito pra lá se mudaram.
Para os antigos moradores de Engenheiro Goulart restou aceitar que toda poesia
do local, à partir de 1970, foi-se acabando em beneficio dos novos moradores.
Simples assim !
Final / Agradecimentos
Apesar e ser um trabalho simples, é claro que ninguém seria capaz de fazê-lo sem a
ajuda de outras pessoas. Por isso, preciso agradecer por todas as contribuições
recebidas dos seguintes pioneiros, meus amigos e amigos do bairro, a seguir:
Djalma de Medeiros, Alzira Fatima Lopes, Maria Zilda Arruda, Marcilio de Oliveira,
Francisco Reginaldo Rodrigues.
Nós nos esforçamos em ser essa narrativa a mais fiel possível à verdade. Porém, é
admissível termos sido traídos pela memória (tanto a minha como a de algum dos
colaboradores citados), de qualquer forma, antecipo pedidos de desculpas por
possíveis falhas e solicito que, nos casos onde se verificarem necessárias correções
ou complemento de informações, que elas cheguem até nos. Continuarão sendo
benvindas no e-mail pinedanac@yahoo.com.br, diretamente ao Dinho.
Finalizamos lamentando pela partida de muitos dos aqui citados e, aos seus
familiares, o nosso respeito, nossa saudade e nossa solidariedade. Temos a certeza
de que eles, ao chegarem no Paraiso, não estranharam muito a "vida" por lá.
Certamente, ela se parece com a do Engenheiro Goulart antigo.
Abraços a todos,
O texto abaixo foi retirado do site: https://saiotedechita.wixsite.com/republicafeminina/sobre-1-c1dgi
A história de Engenheiro Goulart
Para falar da origem do bairro de Engenheiro Goulart, faz-se necessário remontar uma breve história da cidade de São Paulo, mais especificamente, da trajetória de vida do maior rio do estado: Tietê.
O Rio Tietê, um dos símbolos da cidade, tem sua história intrinsecamente relacionada às atividades humanas desenvolvidas em seu entorno.
Primeiros moradores
Antes da chegada dos portugueses, as margens desse rio já eram habitadas pelos indígenas, como revela o geógrafo Aziz Ab'Saber (2004):
"Foi nas bandas dos terrações, próximo da linha dágua, que se estabeleceram as aldeias indígenas, vivendo na primeira terra firme e tendo água para banho, para cozinhar e para beber, peixe para pescar."
Tropeiros
Em 1681, São Paulo já então capital da capitania, torna-se importante centro de rotas comerciais. Na direção LESTE, margeando o rio, abria-se caminho para que os tropeiros chegassem ao Rio de Janeiro, e nesse percurso estabeleciam pontos de pouso para as tropas de burro.
Exploradores
Ainda no início do século XVII, descobriu-se ouro na várzea do Tietê, na região de Guarulhos, ou seja, mesma área de várzea de Engenheiro Goulart. O método utilizado para a extração consistia na lavagem direta dos cascalhos, através do desvio da drenagem da área a ser lavrada, com a construção de pequenos diques de cascalho e blocos.
Trabalhadores
Em 1711, com a chegada do café, São Paulo tem um significativo crescimento econômico, e a cidade passa por grandes transformações urbanas.
Entre 1867 e 1900, as várzeas começam a ser ocupadas pelas ferrovias, que trazem a instalação das primeiras indústrias que se beneficiavam dos transportes para o recebimento de matéria-prima e maquinários vindos de exterior. E, junto com o progresso, inicia-se o processo de degeneração do rio.
Nesse contexto, em 1926 é construída a estação de trem de Engenheiro Goulart, e com ela surgem loteamentos e construções das primeiras que dariam origem ao bairro do mesmo nome.
Meados do século XX, nas margens do rio, outras tantas atividades eram intensamente desenvolvidas na região, como descreve o antigo morador do bairro, Lúcio Bonato:
" (...) esta terra era usada para olarias. Tínhamos duas: uma só fabricava
tijolos, o barro era amassado e preparado com a ajuda de animais de tração;
depois de preparado e feito o tijolo, este ia para forno de lenha, a lenha
vinha da plantação de eucaliptos plantados na própria região. A outra olaria
tinha o mesmo tipo de atuação, porém fabricava outros utensílios de barro, como
telhas e vasos, além dos tijolos. Desta olaria mais conhecida como "Cerâmica",
temos ainda a chaminé, que fica perto da EACH-USP Leste, perto da Belgo
Mineira. Outra atividade era a extração de areia, tínhamos três: O Porto do
João Kumn, o Porto Ribeiro, com duas lagoas, e o Porto Langiani, com diversas
lagoas. Essas lagoas, por causa das cheias do Tietê, se tornavam piscinas, o
que era uma diversão para os moradores da região."
A várzea, por sua terra fértil, era repleta de pequenas chácaras de hortaliças, mandiocas e flores cultivadas especialmente por famílias de japoneses e portugueses.
O Bairro
Até a década de 1970, o cotidiano assemelhava-se à vida das pequenas cidades do interior, isto é, todos se conheciam e se nutriam das atividades culturais coletivas, como descreve Nelson Barboza Leite, nascido e crescido no bairro:
"(...) O cinema do Sr. Medeiros; o queridíssimo Zé Barbudo e o seu time de futebol feminino, na época uma ousadia!; as brigas de futebol; as festas juninas da Dona Nega, do Seu Pedrinho e da Dona Helga; as famosas procissões; as pescarias nas Lagoas do Ribeiro; o sítio do João Kun (atualmente, o Parque Ecológico do Tietê); o truco e baralho de todos os dias no salão do Sr. Leopoldo (meu querido e saudoso pai); a comida da Dona Tita; as preocupações do mano Sergio para manter os jogos e o time do União Vila Silvia..."
No início dos anos 1980, com o propósito de preservar o que ainda restava da várzea e conter as cheias da cidade, foi inaugurado o Parque Ecológico do Tietê, visando aproveitar a área para atividades de lazer, esporte, cultura e preservar
a fauna e flora. É considerada uma das grandes reservas ambientais do estado. Os projetos arquitetônicos foram confiados ao arquiteto Ruy Ohtake.
Em 2006, é inaugurado mais um campus da Universidade de São Paulo - Escola de Artes, Ciências e Humanidades, a USP-Leste - EACH.
Hoje, a região abriga também alguns centros de treinamento de times de futebol, como Corinthians e Portuguesa.
Vale lembrar Nóbrega, ressaltando a importância do rio:
"O Tietê deu a SP quanto possuía: o ouro das areias, a força das águas, a fertilidade das terras, a madeira das matas, os mitos do sertão. Despiu-se de todo encanto e de todo o mistério:
despoetizou-se e empobreceu por São Paulo e pelo Brasil."
O crescimento populacional das décadas seguintes e o descaso do poder público fizeram com que uma realidade cruel se abatesse nas regiões periféricas da cidade, sufocando e enfraquecendo as culturas locais existentes.
Hoje, vemos crescer um movimento de jovens artistas, poetas e pessoas interessadas no desenvolvimento cultural, despontando com muita força, lucidez e audácia. Por meio de intervenções poéticas, como saraus, grafites, vídeos, dentre outras formas de expressão, estão imprimindo um novo cenário nos locais mais distantes do centro da cidade.

